Receber uma decisão judicial desfavorável costuma desencadear uma reação quase automática.
A primeira sensação é de injustiça. A segunda é de urgência.
“Vamos recorrer.”
Essa costuma ser uma das primeiras frases ditas por quem acaba de ler uma sentença, uma decisão interlocutória ou um acórdão que não correspondeu às suas expectativas.
Mas será que recorrer é sempre a melhor escolha?
Nem sempre.
Embora o sistema processual brasileiro assegure às partes o direito de submeter determinadas decisões ao reexame dos Tribunais, isso não significa que todo recurso seja conveniente, útil ou estrategicamente recomendável.
Na prática, uma das funções mais importantes do advogado não é apenas elaborar recursos tecnicamente bem fundamentados. É ajudar o cliente a compreender quando recorrer faz sentido e quando insistir pode apenas prolongar um litígio sem perspectiva concreta de mudança do resultado.
Essa distinção pode evitar desgaste emocional, custos desnecessários e expectativas incompatíveis com a realidade do processo.
Recorrer é um direito, mas não é uma obrigação
O Código de Processo Civil prevê diversos recursos destinados à revisão de decisões judiciais.
Apelação, agravo de instrumento, embargos de declaração, recurso especial e recurso extraordinário são alguns dos instrumentos colocados à disposição das partes.
A existência desses recursos, entretanto, não significa que devam ser utilizados automaticamente sempre que alguém perde uma ação.
O recurso existe para corrigir eventuais erros de julgamento, permitir nova análise de determinadas questões e preservar a adequada aplicação do Direito.
Ele não foi concebido como simples manifestação de inconformismo.
Essa diferença é essencial.
Por que muitas pessoas querem recorrer imediatamente?
Essa reação é compreensível.
Quem participa de um processo normalmente investe tempo, recursos financeiros e energia emocional durante meses ou anos.
Quando a decisão é desfavorável, surge a sensação de que todo esse esforço foi desperdiçado.
Além disso, é natural acreditar que um Tribunal poderá enxergar o caso de maneira diferente.
Em algumas situações, essa expectativa é perfeitamente justificada. Em outras, ela decorre apenas da dificuldade humana de aceitar um resultado negativo.
É justamente nesse momento que a atuação técnica do advogado se torna mais importante do que a própria redação do recurso.
Recorrer exige mais do que discordar da decisão
Existe uma diferença significativa entre acreditar que a decisão foi injusta e existir fundamento jurídico consistente para sua modificação.
O Tribunal não realiza um novo julgamento completamente livre.
Ele examina os pontos impugnados pelo recurso à luz da legislação, das provas produzidas, da fundamentação da decisão recorrida e da jurisprudência aplicável.
Por isso, a simples insatisfação da parte não basta.
É necessário demonstrar, de forma técnica, que a decisão contém erro de interpretação, inadequada aplicação do Direito, vício processual ou outra circunstância juridicamente relevante capaz de justificar sua reforma.
O que um advogado realmente analisa antes de recomendar um recurso?
Ao contrário do que muitos imaginam, a elaboração do recurso representa apenas a etapa final de um trabalho muito maior.
Antes de qualquer recomendação, o advogado costuma realizar uma análise estratégica do processo.
Entre os aspectos normalmente avaliados estão: a fundamentação da decisão; a qualidade da prova produzida; a distribuição do ônus da prova; os precedentes dos Tribunais sobre casos semelhantes; a existência de nulidades processuais; o recurso cabível; o prazo disponível; os riscos envolvidos; e os efeitos práticos que eventual reforma poderá produzir.
Em muitos casos, essa análise é mais importante do que a própria peça recursal.
Quando insistir pode ser um erro estratégico?
Essa talvez seja a pergunta mais importante deste artigo.
Há situações em que recorrer representa uma decisão acertada.
Mas existem outras em que insistir apenas prolonga um conflito cuja probabilidade de reversão é muito pequena.
Isso pode ocorrer, por exemplo, quando: a decisão está integralmente alinhada com a jurisprudência consolidada; a prova produzida é insuficiente para sustentar a tese da parte; o recurso não possui fundamento jurídico consistente; a reforma da decisão produziria benefício muito pequeno diante dos custos envolvidos; ou a estratégia processual mais eficiente está em outra etapa do procedimento.
Nessas hipóteses, recorrer pode significar apenas adiar um desfecho inevitável.
Recorrer também envolve riscos
Muitas pessoas enxergam o recurso apenas como uma nova oportunidade.
Poucas percebem que ele também pode produzir consequências.
Dependendo da situação, o prolongamento do processo pode gerar novos custos, aumento de honorários sucumbenciais, demora na solução definitiva do conflito e manutenção prolongada de uma situação de insegurança jurídica.
Além disso, criar expectativas irreais pode aumentar o desgaste emocional do cliente.
Por isso, uma orientação responsável exige transparência.
Nem sempre a resposta técnica será aquela que o cliente gostaria de ouvir.
Quando recorrer costuma ser recomendável?
Embora cada caso possua características próprias, algumas situações normalmente justificam análise recursal mais aprofundada.
Entre elas, destacam-se decisões que: deixaram de apreciar provas relevantes; aplicaram interpretação jurídica aparentemente incompatível com a legislação ou com precedentes consolidados; contêm omissões, contradições ou obscuridades relevantes; desrespeitam garantias processuais; ou produzem consequências patrimoniais significativas com base em fundamentação questionável.
Nessas hipóteses, o recurso pode representar importante instrumento de proteção dos direitos da parte.
Existe diferença entre poder recorrer e valer a pena recorrer?
Sim.
Essa diferença é fundamental.
Uma decisão pode admitir recurso sob o aspecto processual.
Isso significa apenas que existe um instrumento legal disponível.
Outra questão completamente diferente é saber se esse recurso possui perspectiva concreta de modificar o resultado.
Em outras palavras, nem todo recurso cabível é estrategicamente recomendável.
É justamente essa avaliação que deve anteceder qualquer decisão.
Estratégia processual também significa saber quando encerrar o litígio
Na advocacia, estratégia não consiste apenas em identificar novos caminhos.
Consiste também em reconhecer quando determinado caminho deixou de produzir benefícios proporcionais aos custos envolvidos.
Em alguns casos, a solução mais inteligente pode ser buscar acordo, concentrar esforços na fase de cumprimento de sentença ou reorganizar a estratégia patrimonial da parte.
Saber encerrar um litígio no momento adequado também representa uma forma de proteger os interesses do cliente.
O cliente procura um recurso, mas precisa de uma análise
É comum que alguém procure um advogado dizendo: “Quero recorrer”.
Entretanto, essa talvez não seja a pergunta mais importante.
A pergunta correta costuma ser outra: existe fundamento técnico que justifique esse recurso?
Responder a essa questão exige estudo.
Exige leitura integral do processo.
Exige conhecimento da jurisprudência.
Exige experiência prática.
E, principalmente, exige independência para dizer ao cliente tanto quando vale a pena recorrer quanto quando a melhor estratégia pode ser diferente.
Conclusão
O recurso ocupa posição importante no sistema processual brasileiro.
Ele permite que decisões judiciais sejam revistas e constitui importante mecanismo de proteção contra eventuais equívocos de julgamento.
Mas recorrer não deve ser tratado como resposta automática a toda derrota judicial.
Uma advocacia verdadeiramente estratégica não mede seu trabalho pela quantidade de recursos apresentados.
Mede pela qualidade das decisões que orienta.
Às vezes, recorrer representa a melhor alternativa para proteger direitos relevantes.
Em outras situações, insistir apenas prolonga um conflito sem perspectiva real de mudança.
Por isso, antes de recorrer, vale a pena responder a uma pergunta simples: o recurso realmente aumenta as chances de alcançar um resultado melhor ou apenas adia uma decisão que dificilmente será modificada?
Em matéria recursal, tão importante quanto conhecer os instrumentos previstos na lei é compreender quando sua utilização efetivamente contribui para a melhor proteção dos interesses da parte.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo, conforme as diretrizes da OAB.
Ricardo Russeff Prado Cenachi
Advogado | OAB/MG 241.610
Especialista em Processo Civil pela PUC Minas
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